A escola de Crato e a nossa


Nuno Crato, ex-ministro da Educação, chegou ao Governo anterior com uma missão: "Rigor" e "exigência" para as nossas escolas, alunos e professores.
Esta era uma das muitas áreas em que a direita dizia querer mudar muita coisa, após a entrada da troika em Portugal. O ministro e o Governo achavam que podiam fazer mais e melhor com menos. Talvez os seus discursos tivessem o dom de inspirar os professores a fazerem esforços sobre-humanos com turmas gigantescas, escolas a cair e alunos a desfalecerem com fome nas salas de aula.
O que Crato prometeu, a pretexto de combater o "facilitismo" no ensino, e ao arrepio da tendência que se verifica no resto da Europa, foi aplicar uma receita neoliberal de degradação da escola pública e limitação daquilo que os nossos alunos podem aprender.
A escola pública, gratuita e universal, foi uma das grandes conquistas da Revolução de Abril. Um direito consagrado na nossa Constituição, construído e mantido graças aos esforços conjuntos de pais, professores, alunos e pedagogos, que acreditavam num modelo democrático da escola, onde todos poderiam aprender e ninguém seria excluído por força da sua condição social, género, nacionalidade ou origem étnica.
Mas Crato entendia que não competia aos alunos aprender demais. A escola seria um lugar de educação para a opressão, onde nada se deve questionar e o importante mesmo é o português e a matemática, como nos tempos da Ditadura apenas se ensinava as crianças a ler, escrever e contar.
A escola seria uma fábrica onde se aprende o básico e se memorizam conteúdos apenas porque sim. Lá fora, no mercado de trabalho, não teríamos a capacidade de pôr em causa as ordens do patrão ou as políticas ou as atitudes dos outros que contrariam a nossa vontade.
As línguas, as humanidades não servem para nada porque não é com elas que se produz para o grande capital. Não se querem pessoas conscientes, seres pensantes, querem-se pessoas que trabalhem e que olhem somente para baixo.
Mas não foi para isso que os nossos pais e avós lutaram pela Democracia. Não era esse o modelo que os pais e mães da Revolução tinham em mente quando arriscaram a vida e a sua própria liberdade em defesa dos seus ideais. A escola ou é de todos ou não é a nossa.
Crato sabia que uma geração que não passou pela carência e pela opressão que tantos viveram no passado, ofuscada pelo sedutor apelo ao consumismo, por uma cultura de pendor comercial e uma imprensa de livre aparência mas que serve os interesses do capital, não tem a mesma preparação mental e intelectual para lidar com os desafios da pressão especulativa sobre a escola pública, sobre o mundo do trabalho, sobre a sociedade em geral.
Pensou talvez por isso que seria fácil retroceder quatro décadas de trabalho árduo, modificando programas de ensino cujos bons resultados estavam comprovados, degradando as condições de trabalho dos professores, privando as escolas de funcionários suficientes, fazendo crescer o número de alunos por turma além do razoável, reforçando os poderes a diretores de escolas que nunca deram aulas, agrupando as escolas em mega-aglomerados impossíveis de gerir e cortando no orçamento da escola pública ao mesmo tempo que passava cheques às escolas privadas para lhes garantir a sobrevivência e os lucros aos seus donos.
Mas a escola que a direita quer não é a escola que o nosso povo quer. O modelo de Crato, vazio e perverso, é um modelo que não tem pernas para andar.
A "geringonça", como lhe chamaram, pode não ser unânime em relação a todos os aspetos, e em particular ao caminho que o ensino deve seguir nos próximos anos, mas num sentido estamos certos de que irão convergir:
A escola é um lugar para aprender e construir uma consciência social e humana estruturada. Não é uma fábrica que gera autómatos cujo propósito de vida é perpetuar o fracassado sistema capitalista e maximizar o alcance da exploração do homem pelo homem até ao fim dos seus dias.

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