Ao contrário do movimento reacionário dos últimos anos que aparece em todas as secções de comentários de jornais online a insurgir-se contra o politicamente correto, assumo-me como tal. Tento não ofender gratuitamente seja quem for quando escrevo ou falo e, quer tenha mais ou menos sucesso, orgulho-me disso. Ser civilizado pede uma dose de cuidado na abordagem aos temas e a consciência de que as palavras que emitimos têm, no mínimo, influência em quem nos rodeia. Sem nunca censurar o direito à expressão livre que foi tão arduamente conquistado, há que sensibilizar para uma convivência que não seja desnecessariamente ofensiva e isso exige recorrer o menos possível à justificação da “liberdade de expressão” para ataques pessoais.
Sob risco de ser acusado de me contradizer, vou opinar de forma pouco simpática sobre a religião e, devido a suscetibilidades que possa ferir, acho por bem avisar que não vou ser politicamente correto. Em minha defesa, acredito na garantia universal de acreditar no que se quiser e praticar qualquer Religião desde que devidamente separada da Justiça e da Política. Ainda assim, penso que nenhuma destas três deve ser imune à crítica nem ser protegida como uma etnia, género, capacidade física ou outros domínios da identidade. Acho totalmente reprovável ofender alguém com base em algo que essa pessoa não pode mudar, considerando aceitável, contudo, que toda a gente possa ser alvo de crítica, sem exceção, por defender qualquer partido ou prestar culto a algo. Deve haver uma separação entre o que é inerentemente parte de nós e o que são escolhas, pelo que incentivo toda a gente a usar e abusar da sua liberdade opinativa no que diz respeito à segunda. Questionem-se ideias, não identidades. Tentarei fazer exatamente isso.
Sou ateu. Abertamente ateu e discretamente antiteísta. Era criança quando partilhei com a minha mãe que o meu lugar aos sábados à tarde não era na catequese e sim numa livraria, num cinema, a assistir a um teatro ou até em casa. Aí podia escolher a informação que recebia e explorar um leque variado de visões do mundo, em vez da endoutrinação vinda de quem, ainda que muitas vezes com boas intenções, tem como função formatar, tal como foi formatado, as crianças sentadas em círculo num salão austero para serem silenciadas de seguida numa missa que parece infinita e é mergulhada em histórias dantescas que incitam ao medo e à vergonha.
Aos oito anos, após compreender a teoria da evolução que derrubou o criacionismo divino, afirmei que Deus não existia. Sem demasiada resistência, os meus pais compreenderam, afinal eram e são pessoas que veem propósito no pensamento científico e na rejeição dos dogmas. Seguiram-se os restantes membros da família, ainda que mantivessem uma certa vontade que eu um dia me rendesse à crença generalizada numa divindade omnipotente, omnisciente e omnipresente, sem encontrarem qualquer incongruência na inatividade deste Deus todo-poderoso perante crianças a morrer à fome, animais abandonados ou maltratados e guerras que continuam a devorar vidas pelo planeta fora, apenas para enumerar algumas injustiças.
Anunciar-me não crente não significa que me tenha isolado da religião, muito pelo contrário; enquanto amante de mitologia greco-romana, as histórias bíblicas foram para mim mitos tão ou mais interessantes do que o Prometeu desafiador e a Afrodite nascida da espuma. As religiões abraâmicas, onde o catolicismo se insere, são tanto um cancro para o progresso humano como fonte das mais grotescas e surreais histórias inventadas. E esta realidade sempre apelou ao meu imaginário literário.
A minha fuga aos locais de culto foi mais pela irracionalidade praticada nestes do que pela falta de curiosidade na teatralidade e alucinação do protocolo, que admito que me chocava na infância e me veio a fascinar na adolescência por motivos criativos. Quão canibal, mesmo que metafórico, é comer o corpo e beber o sangue de Jesus na forma de um círculo de pão insípido e vinho? Considero absurdo que não se discuta como noutro contexto isto seria rotulado de lunático ou, pelo menos, de devaneio da mente de um realizador de cinema.
Mergulhei desde cedo na teologia, descobrindo que a religião era afinal uma multiplicidade de religiões e que cada um pode adotar e adaptar a fé conforme preferir. Isto faria qualquer jovem repensar a possibilidade de aceitar um ser divino. Em mim, teve o efeito oposto. Se me declarava agnóstico até aqui, este relativismo tornou-me vincadamente ateu. Quase toda a população de um país dito desenvolvido concorda que uma religião que força os fiéis a curvar-se perante todas as suas vírgulas é desatualizada e uma atrocidade, vendo como positivo que esta nos deixe interpretar e selecionar mandamentos ao nosso gosto na promessa de obter o mesmo perdão e Paraíso de quem os seguiu todos minuciosamente; esta abordagem torna-a para mim ainda menos credível. Que moralidade pode a fé cristã oferecer quando se torna tão vaga como preferir um sabor de gelado ou escolher um destino de férias, dividindo-se em católica, evangélica, calvinista, luterana e muitas mais com variantes que não raras vezes se contrariam?
Se um fundamentalista religioso é, ainda bem, visto como intragável, um personalista devia ser visto como uma paródia das próprias leituras religiosas, porque escolhe jejuar na quaresma e beijar Cristo na cruz mas mistura tecidos na roupa, corta a barba e o cabelo o ano todo e, felizmente, pune os violadores. A Bíblia diz expressamente para não misturar tecidos diferentes, não aparar nenhum pelo que nasça no corpo e que uma mulher violada deve ser entregue pelo próprio pai a casar-se com o violador já que foi desonrada. Quantos crentes não sabem nada disto e quantos aceitariam praticar uma religião que diz isto no seu livro sagrado? A aleatoriedade de quem seleciona o mais fácil ou o que dá jeito, tira na minha opinião qualquer coerência à sua crença. E para quem argumenta que “as escrituras não são para interpretar literalmente” ou que “o Novo Testamento é que importa, o Antigo era para outros tempos”, confronto com duas questões: Porque haveria Deus de enviar uma mensagem confusa e sujeita a interpretações diferentes conforme a época e o indivíduo, se o propósito final foi sempre salvar igualmente as nossas hipotéticas almas? Para não entrar no caráter narcisista e autoritário de uma divindade que exige ser adorada acima de todas as coisas, que, caso existisse, não poderia ser mais inaceitável. Porquê permitir, sendo Criador de tudo, que seja feito um Antigo Testamento repleto de violência, abusos de poder e opressão de todo o tipo de pessoas se é para ser classificado séculos depois como irrelevante, ainda que passível de ser usado e imposto aos outros por algumas fações extremistas? Acima de tudo, por que é que a crença que nos é ensinada é a verdadeira? A comunidade ateísta brinca frequentemente acerca de, caso existisse alguma divindade, todos os que professaram outra fé que não a 'correta' virem a ser condenados para toda a eternidade tal como nós ateus. Sendo a perspetiva de salvação uma roleta russa dependente da cultura que nos é dada, prefiro que o meu compasso moral obedeça à lei civil, que é até certo ponto também um produto cultural, com as vantagens de ser concreta, tangível por todos e de se atualizar conforme a evolução da Sociedade e da Ciência.
A minha lógica de criança e a de milhões de ateus e ateias por todo o mundo continua até hoje a indicar o óbvio. Deus não existe e quem alimentou a sua existência teve sempre o propósito de obter poder, o que continua a acontecer com sucesso. Todos sabemos que a religião continua a sobreviver no que se costuma chamar Ocidente porque as instituições religiosas, maioritariamente a Igreja Católica, têm uma influência política desmedida e isto é injustificável numa era pós-Iluminismo. Temos tantas provas da existência de um deus como do Monstro de Lochness e a ficção do Harry Potter consegue ser mais realista do que as passagens de ‘Génesis’ ou de ‘Êxodo’, sendo incompreensível que ninguém faça disciplinas escolares baseadas na ética do Batman nem leve os encontros de cosplay a sério já que dá credibilidade a eventos religiosos. Por muito que este Papa seja mais agradável do que os anteriores ou que a mentalidade do Vaticano se venha a atualizar como outras Igrejas fazem para perder menos crentes e parecer mais apelativa na atualidade, a religião nunca deveria ser algo desejável uma vez que se baseia em falácias, tem um passado manchado de sangue e não tem provas reais para se fundamentar. Não estou de maneira nenhuma a salvaguardar o Islamismo ou o Hinduísmo. A fé é, sem exceção, uma alucinação coletiva que resulta quase sempre de lavagens cerebrais desde o nascimento, de outra forma seria sempre julgada como uma anedota.
Podem boas ações ser feitas pela religião? Apesar de todo o mal feito por via da fé, desde as Cruzadas e da Inquisição até ao terrorismo contemporâneo, males estes que historicamente ultrapassam em muito o bom, são realizadas por vezes práticas bondosas justificadas numa alegada espiritualidade e não há nada de errado nisso. Porém, creio que essas poderiam ser promovidas de igual forma em nome da solidariedade ou do humanismo e não de Jeová, Alá ou qualquer outro.
Para além do peso institucional já falado, a educação fica com a maior fatia da culpa, dado que continua a tentar pôr os pequenos seres humanos a rezar à noite. Quem não se apercebe que se nascesse noutro país ou noutro momento histórico acreditaria em algo diferente, tornando a sua fé uma mera circunstância, não pode ter pensado muito sobre o assunto. A abordagem de “pelo sim e pelo não, vou acreditar” parte de uma premissa errada que para ser justa teria de ser aplicada a unicórnios, duendes e a todo o folclore místico ou mitológico.
Perante este paradigma e com o acesso à informação mais facilitado do que nunca, a boa notícia já era expectável: segundo sondagens publicadas recentemente nas mais variadas fontes de notícias, as novas gerações europeias são cada vez menos crentes e em Portugal quase metade dos jovens não tem nem professa qualquer religião. Existiam humanos antes de se inventar a noção de deus e continuarão a existir se o conceito deste desaparecer.
De qualquer forma, podemos acelerar o processo? Sei que pedir isto talvez seja esperança (e não fé) a mais da minha parte. Mas não custa tentar.

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