Apesar da atual conjuntura desse país, não tenho opinado sobre a política brasileira e não tenho sequer exposto nas redes sociais a minha posição sobre as eleições para a presidência do Brasil, tendo até visto várias vezes o meu silêncio questionado direta e indiretamente. Ainda que à partida não tenha obrigação de endereçar as eventuais más escolhas de todos os países, acredito (mais vezes do que não) que temos o dever de nos posicionar perante aquilo que consideramos errado, sobretudo quando se trata de perigos iminentes com repercussões catastróficas para toda a população como a liberalização do porte de armas, por exemplo.
Duvido seriamente que alguém pense que a minha falta de partilhas sobre o assunto tenha sido por falta de opinião, por desinteresse e, muito menos, por apoio a um indivíduo como Jair Bolsonaro, que é uma ameaça real, não apenas para as minorias como para a totalidade da sociedade brasileira e para a democracia no futuro. Achei lógico que, resultado do paralelismo evidente Brasil/EUA e da conclusão de que a eleição de Trump aconteceu em grande parte pelo mediatismo amplificado e pela visibilidade online que colocou holofotes constantes sobre o mesmo, o meu objetivo era não validar um discurso ultraconservador nem dar ainda mais relevância ao equivalente exacerbado do presidente americano no Brasil. E a tática de, à microescala, não o ajudar a catapultar-se tinha até agora funcionado para mim - ou, pelo menos, para a minha consciência -, esperando que imensa gente fizesse o mesmo ao longo dos meses, especialmente no Brasil, para que a sua demagogia reacionária apelasse apenas ao inevitável nicho de eleitores mal informados e mal formados.
Acontece que chegamos a um ponto em que o nicho já parece uma maioria, em que temos brasileir@s a manifestar-se nas ruas de Portugal a favor da sua retórica distorcida, conhecid@s que considerava boas pessoas até então a apoiá-lo abertamente e o candidato em questão a aparentar liderar sondagens dia após dia. Estamos numa altura em que o silêncio é inútil, em que os receios expressos em cada hashtag #ELENÃO, #ELENUNCA, #ELEJAMAIS parecem dar mais força aos seus apoiantes que agora se autointitulam orgulhosamente de “opressores” e em que a única esperança de brasileir@s com algum senso comum é que se acabe com os partidarismos e com as preferências pessoais para votar em massa na alternativa mais provável de derrotar um homem que defende a ditadura militar, que reproduz sistematicamente os "-ismos" mais inaceitáveis para uma sociedade contemporânea civilizada e que vai colocar em perigo a estrutura económica e o percurso social do seu país.
Por muito que possa custar a alguém politicamente canhoto como eu dizê-lo, não é o melhor momento para esquerdas, nem para centros nem para direitas. É o momento de todas estas posições e das diversas ideologias, juntamente com toda a gente com um mínimo de consciência que nunca pensou envolver-se na política, se unirem contra esta odiosa cara da extrema-direita que é apelidada pelos seus seguidores de "mito" em cada promessa que faz contra os direitos humanos.
Podemos refletir sobre a direção que estamos a tomar enquanto Mundo e claro que devemos procurar soluções racionais para travar os populismos dos últimos anos analisados até à exaustão, juntamente com os motivos que fazem tantos povos gerar este fenómeno nos seus países; porém, o objetivo principal e imediato deveria ser uma solução realista para impedir Bolsonaro de chegar ao poder e evitar que as piores partes da História se repitam. Mesmo que, para o conseguir, muita gente que não simpatiza com Haddad (PT) ou com Ciro (PDT) tenha de pôr as suas convicções intransigentes de lado - e idealmente até partidos adversários ponham os objetivos individuais em pausa - e apelem ao voto num destes dois, que são bastante imperfeitos sim, mas mais prováveis de ganhar ao candidato proto-fascista do que os restantes.

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